O Tambor de Mina, religião afro-brasileira típica do Pará e Maranhão, chegou a São Paulo na década de 1970 trazido pelo paraense Pai Francelino de Xapanã. A nova manifestação religiosa causou estranhamento e foi descredibilizada por algumas lideranças locais, que a classificaram como ‘Umbanda alegre’, evidenciando tensões no processo de migração religiosa.
No Pará, as lendas do ‘Boto namorador’ e suas fragrâncias vendidas no Ver-o-Peso são exemplos de encantarias – seres que não morreram, mas se encantaram em plantas, animais, matas e rios. Essas crenças fazem parte do Tambor de Mina, que cultua voduns, orixás e encantados.
Pai Francelino foi iniciado no Pará por Mãe Joana de Xapanã e, após transitar pelo Rio de Janeiro e Curitiba, fixou-se em São Paulo. Para realizar obrigações religiosas importantes, contatou Pai Jorge de Itacy, do Maranhão, fortalecendo a ligação entre os dois estados. Sua casa, a Casa de Thoya Jarina, incorpora elementos como Carimbó e Círio de Nazaré.
Com persistência, Pai Francelino tornou-se autoridade religiosa, fundou a Federação de Umbanda e Cultos Afro-Brasileiros de Diadema (Fucabrad) e coordenou o Instituto Nacional da Tradição e Cultura Afro-Brasileira (Intecab) em São Paulo. Estudos de Vagner Gonçalves da Silva e Reginaldo Prandi deram visibilidade ao Tambor de Mina na academia. Pai Francelino faleceu em 2007, sendo sucedido por Toy Voduno Márcio de Boço Jara.
Os encantados, como Antônio Légua e Thereza Légua, são figuras centrais, descritos como irônicos e divertidos, mas que levam a ‘brincadeira’ a sério. Eles mobilizam elementos culturais do Pará e Maranhão em São Paulo, como o Carimbó no bloco Cavaleiros de Doçu e o tambor de crioula no coletivo Dona Teca, liderado por Mãe Sandra de Xadantã.
A mobilidade dos encantados também inspirou a Festa do Bumba Meu Boi do Morro do Querosene, organizada pelo Grupo Cupuaçu há 40 anos. O evento, que ocorre três vezes ao ano, segue o ciclo de nascimento, batizado e morte do boi, representando os ciclos da vida, segundo Ariel Coelho, brincante e especialista em cultura popular.
