Um dossiê de 421 páginas, resultado de uma investigação liderada por pesquisadores franceses em parceria com a professora e pianista Danieli Verônica Longo Benedetti, da Unesp, foi lançado oficialmente em 18 de junho. O trabalho reúne a documentação completa dos 172 concertos organizados pela Société Musicale Indépendante (SMI) entre 20 de abril de 1910 e 3 de maio de 1935.
Os registros – programas, correspondências e matérias de imprensa – estão disponíveis ao público na plataforma digital Dezède, rede colaborativa de arquivamento de espetáculos na França, que conta com apoio do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS).
Até então, a principal referência sobre a SMI era o livro “L’avant‑garde musicale et ses sociétés à Paris de 1871 à 1939”, de Michel Duchesneau (1997). O novo dossiê, elaborado a partir de março de 2022, amplia essa base ao incluir anexos que detalham a trajetória da sociedade fundada por Maurice Ravel e outros oito músicos.
Em 1910, nove compositores assinaram o manifesto de fundação da SMI como resposta ao conservadorismo da Société Nationale de Musique (SNM), órgão subvencionado pelo governo francês e marcado por um forte nacionalismo pós‑Guerra Franco‑Prussiana. Diferente da SNM, os “independentes” buscavam divulgar música contemporânea sem restrição de escola ou nacionalidade.
Após a Primeira Guerra Mundial, a SMI entrou em sua fase mais produtiva, incorporando compositores estrangeiros e criando um comitê internacional com nomes como Béla Bartók, Manuel de Falla, Arnold Schönberg, Alfredo Casella, George Enescu e Igor Stravinsky. “Os compositores tocados na SMI trouxeram à música todo tipo de pesquisa relacionada às inovações composicionais, ou seja, o auge da música contemporânea”, diz a professora do Instituto de Artes da Unesp.
O dossiê também destaca a participação de mulheres compositoras – 29 autoras em 51 concertos, cerca de 30 % do total – e a influência de Nadia Boulanger, responsável por manter a sociedade ativa até 1935. “Na sociedade nacional, por exemplo, as mulheres não tiveram o direito de participar do comitê diretivo. Diferente dos ‘independentes’. Inclusive a SMI não teria sobrevivido até 1935 sem uma mulher, Nadia Boulanger, grande responsável pelas atividades da sociedade em seus últimos anos de existência”, afirma a docente.
Entre os brasileiros citados, estão os compositores Heitor Villa‑Lobos (concertos de 1928 e 1929), Oswaldo Guerra (concerto‑número 100, 1924) e Luciano Gallet (exibição de 1933). O documento também registra cinco intérpretes brasileiros, como as cantoras Elsie Houston e Julieta de Menezes, que apresentaram obras de Villa‑Lobos e Gallet nos palcos da SMI.
