Pesquisadores da USP descobriram que a contaminação por fósforo em reagentes considerados livres desse elemento pode distorcer estimativas de mutação em bactérias Escherichia coli, com possíveis impactos no desenvolvimento de defensivos agrícolas. O estudo foi publicado no Journal of Bacteriology.
A equipe do Centro de Pesquisa em Biologia de Bactérias e Bacteriófagos (Cepid B3), sediado no Instituto de Química (IQ) da USP, investigou o sistema Phn da E. coli, que permite à bactéria usar fosfonato como fonte alternativa de alimento. Em laboratório, mutações no gene phnE inativam esse sistema, e os cientistas mediram a frequência com que essas mutações eram revertidas espontaneamente.
Os resultados mostraram que, quanto menor o número inicial de bactérias, maior parecia ser a taxa de reversão. No entanto, ao usar células ‘limpadoras’ ou filtrar o meio de cultura para remover contaminações, a frequência de reversão caiu para cerca de 1 em cada 10 milhões. A contaminação por fósforo no meio de cultura favorecia o crescimento bacteriano, aumentando a probabilidade de reversões.
“Interpretar de forma incorreta a frequência de mutantes pode levar a conclusões equivocadas sobre processos adaptativos”, alerta Beny Spira, autor do estudo e pesquisador do Cepid B3 e do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP. Ele destaca que reagentes usados em experimentos raramente são totalmente puros e que pequenas contaminações podem influenciar significativamente os resultados.
O estudo também sugere que a inativação do sistema Phn pode ser vantajosa em ambientes com pouco fosfonato, como o intestino de mamíferos, onde manter o sistema ativo seria um gasto energético desnecessário. Cerca de 15% das linhagens de E. coli analisadas não possuem o sistema funcional.
Os pesquisadores pretendem agora analisar centenas de cepas de E. coli para determinar a frequência do sistema Phn funcional. Compreender a distribuição desse sistema em comunidades microbianas pode ajudar a prever o destino de fosfonatos no solo e aprimorar o uso de defensivos agrícolas, tornando-os mais eficientes e sustentáveis.