sábado, 22 de agosto de 2026
Postado emEconomia, São Paulo

Tarifaço dos EUA atinge indústria brasileira, mas poupa commodities; especialistas alertam para riscos

Tarifaço dos EUA atinge indústria brasileira, mas poupa commodities; especialistas alertam para riscos
Tarifaço dos EUA atinge indústria brasileira, mas poupa commodities; especialistas alertam para riscos
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O governo dos Estados Unidos impôs, em julho, duas tarifas sobre produtos brasileiros: uma de 25%, por supostas práticas desleais, e outra de 12,5%, por alegações de trabalho forçado. A medida, que afeta principalmente setores industriais como manufaturas, móveis e roupas, poupou commodities como petróleo, café e carne bovina. Especialistas da USP ouvidos pelo Jornal da USP avaliam os impactos para a economia brasileira e alertam para a necessidade de diversificação de mercados e para os riscos de uma nova dependência, agora da China.

O professor Paulo Feldmann, da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP, afirma que a ação não é inédita, mas surpreende por partir dos EUA, historicamente defensores do livre comércio. Ele destaca que, apesar do susto, as empresas brasileiras já aprenderam a buscar novos mercados: “A gente agora aprendeu que a saída é procurar novos parceiros, novos mercados. As empresas brasileiras desenvolveram essa capacidade de buscar novos mercados. Foi uma coisa muito boa que aconteceu, a males que vem para o bem”.

Para Feldmann, a diversificação é positiva, pois o Brasil era muito dependente do mercado norte-americano. “Talvez a gente tenha uma lição a aprender: não é bom depender de um único mercado”, conclui. No entanto, ele alerta para o risco de substituir a dependência dos EUA pela China. “A China não gera emprego no Brasil. Quando ela vem com as empresas do Brasil, ela traz trabalhadores chineses, em boa parte. Ela não emprega trabalhadores brasileiros, muito pouco”, afirma. Além disso, o professor aponta que, em acordos com a China, o Brasil exporta principalmente commodities e, quando vende produtos tecnológicos, é obrigado a transferir tecnologia para empresas estatais chinesas, sem que haja reciprocidade.

O professor do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP, que preferiu não ser identificado, observa que, historicamente, pressões americanas sobre o Brasil resultam em aproximação com a China. “Toda vez que os americanos pressionaram o Brasil, seja por tarifa, seja por Lei Magnitsky, seja por designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, o governo Lula ligou para a China ou a China ligou para o Brasil e mais um acordo positivo entre o Brasil e a China foi assinado”. Ele ressalta, porém, que a China é protecionista e não faz acordos comerciais com facilidade.

O governo americano justifica as tarifas como forma de gerar empregos nos EUA e aumentar a arrecadação. Feldmann explica que a ideia é que empresas estrangeiras, em vez de exportar, abram fábricas no país. “As tarifas vão direto para o bolso do governo americano. Todas essas tarifas são dinheiro a mais entrando para o governo americano”, diz.

A tarifa de 25% tem base na Seção 301 da Lei do Comércio dos EUA, que investiga práticas consideradas desleais. Entre as acusações estão o PIX, o desmatamento ilegal, a pirataria e falhas na aplicação de leis anticorrupção. Feldmann defende o PIX como inovação benéfica ao Brasil, apesar do impacto sobre empresas americanas de cartões de crédito. Já a tarifa de 12,5%, aplicada a 60 países, acusa o Brasil de trabalho forçado, o que o professor considera um absurdo, pois o país respeita direitos humanos e proíbe trabalho escravo.

Para os empresários e trabalhadores locais, o tarifaço representa um desafio para a indústria, que precisará se adaptar e buscar novos mercados. A diversificação pode trazer oportunidades, mas exige cautela para evitar novas dependências. A relação com a China, embora promissora, deve ser equilibrada, com exigência de transferência de tecnologia e geração de empregos locais.

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