Pesquisadores identificaram alterações na curvatura do córtex cerebral e semelhanças estruturais entre regiões do cérebro que podem estar na origem do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). O estudo, publicado na revista Nature Communications, analisou dados de 4.519 participantes, incluindo 2.255 pacientes com TOC e 2.264 controles, e utilizou técnicas de aprendizado de máquina para caracterizar a morfologia cerebral de forma abrangente.
Liderado pelo cientista brasileiro Leonardo Saraiva, atualmente pós-doutorando em psiquiatria na Yale School of Medicine (EUA) e pesquisador do grupo Gen_TOC do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP, o trabalho avaliou nove características corticais e quatro subcorticais, incluindo algumas nunca antes examinadas em estudos sobre o TOC. Os pesquisadores também analisaram um novo fenótipo de rede de similaridade estrutural subcortical, que envolve regiões do cérebro com características estruturais semelhantes.
Os resultados mostraram alterações na curvatura cortical em regiões da rede frontoparietal, aumento da similaridade estrutural em regiões sensoriomotoras e mudanças na forma de estruturas subcorticais. Além disso, a análise da expressão gênica em tecido cerebral de pacientes submetidos à cirurgia de estimulação cerebral profunda revelou que genes com atividade reduzida estavam associados às alterações observadas, sugerindo desregulação de neurônios excitatórios.
“A arquitetura do cérebro é complexa, e qualquer uma de suas inúmeras características pode ser afetada por patologias. No entanto, os estudos de neuroimagem sobre o TOC, e a maioria dos estudos sobre outros transtornos, concentraram-se apenas em alguns fenótipos estruturais, que capturam apenas uma fração dessa complexidade”, destacou Saraiva. “Uma mudança para uma análise de neuroimagem multi-fenotípica pode melhorar nossa compreensão da disfunção cerebral, integrando insights complementares de fenótipos com bases neurobiológicas distintas.”
O estudo integra o consórcio internacional ENIGMA-OCD, que reúne mais de 100 cientistas de 26 centros em todo o mundo, e contou com a participação de instituições brasileiras como a Unifesp, UFRGS, Unicamp e o Centro Universitário Max Planck. Para o professor Euripedes Constantino Miguel, coordenador do CISM e orientador de Saraiva, a colaboração internacional foi essencial: “O projeto combina ciência rigorosa, métodos controlados e análise de dados extremamente abrangente, o que nos permite formular hipóteses heurísticas sobre os mecanismos envolvidos na origem do TOC”.
Os achados reforçam a importância de uma abordagem abrangente para caracterizar a morfologia cerebral e podem levar à descoberta de mecanismos neurais subjacentes aos transtornos mentais, apoiando o desenvolvimento de caracterizações mais eficazes e, potencialmente, novos tratamentos para o TOC.
