sábado, 22 de agosto de 2026
Postado emSão Paulo, Vida e Saúde

Luto perinatal: especialista da USP alerta para invisibilidade e falta de acolhimento

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Luto perinatal: especialista da USP alerta para invisibilidade e falta de acolhimento
Luto perinatal: especialista da USP alerta para invisibilidade e falta de acolhimento

O luto perinatal, que ocorre quando um bebê morre no dia do nascimento ou até sete dias após o parto, é uma experiência marcada pela invisibilidade social e pela falta de acolhimento adequado nos serviços de saúde. Além da perda do filho, as famílias enfrentam o rompimento de expectativas e planos construídos durante a gestação, o que torna o sofrimento ainda mais intenso.

Segundo Elaine Gomes dos Reis Alves, pós-doutora em Psicologia de Emergências e Desastres e pesquisadora convidada do Laboratório de Estudos sobre a Morte do Instituto de Psicologia da USP, a dificuldade em reconhecer esse tipo de dor tem raízes históricas. No século 20, as mulheres tinham muitos filhos e, devido às condições sanitárias e ao acesso limitado à saúde, as perdas gestacionais e neonatais eram frequentes.

“Era muito comum se perguntar quantos vingariam ou só quantos vingaram. Então, de certa forma, claro que a mãe sofria, mas ela já sabia dessa possibilidade. Muitas delas evitavam criar vínculo com o bebê”, explica a especialista. Com os avanços da medicina, o pré-natal se tornou mais amplo e exames como a ultrassonografia aproximaram os pais do bebê ainda na gestação, fortalecendo o vínculo precoce e tornando a perda mais dolorosa.

Apesar disso, o sofrimento costuma ser minimizado. “No começo as pessoas acolhem, mas rapidamente começam a dizer que eles ainda vão ser pais, que terão outro bebê ou que perder um bebê durante a gestação é muito comum. Há uma desconsideração e uma desvalorização desse luto”, afirma Elaine. Essa reação invalida a experiência dos pais e dificulta a elaboração da perda, reforçando o isolamento das famílias.

A pesquisadora destaca que é fundamental humanizar o atendimento e respeitar o tempo e os desejos da família no processo de despedida. Quando possível, a mãe deve ter a oportunidade de segurar o bebê, tocá-lo, conversar e registrar o momento com fotografias, caso deseje. “Todas as famílias deveriam ter acesso a esse processo de despedida dentro dos hospitais”, ressalta. Ao contrário do que muitos pensam, impedir esse contato não protege a mãe; a despedida pode contribuir para a elaboração do luto.

Dar espaço para que mães, pais e familiares falem sobre a perda é uma forma de validar o sofrimento. Reconhecer essa dor e garantir um atendimento humanizado são passos essenciais para que essas famílias não enfrentem o luto perinatal em silêncio e sozinhas.

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