Pesquisadores da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, e da USP descobriram que os barorreceptores, sensores mecânicos que controlam a pressão arterial, também detectam inflamações no corpo e se comunicam com o cérebro. O estudo, publicado em junho na revista Basic Research in Cardiology, mostra que essas estruturas, localizadas na parede da artéria aorta, possuem um papel além do controle cardiovascular: atuam como sensores imunológicos.
De acordo com a pesquisadora Fernanda Brognara, que liderou o estudo, a interação entre os sistemas nervoso e imunológico é conhecida há mais de um século, mas os mecanismos dessa comunicação ainda são investigados. A hipótese de que os barorreceptores aórticos estivessem envolvidos nessa resposta foi testada pela primeira vez durante seu doutorado no Departamento de Fisiologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP.
No estudo atual, realizado durante o pós-doutorado na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP, sob supervisão da professora Evelin Capellari Cárnio, a equipe analisou o nervo depressor aórtico, que transmite informações dos barorreceptores ao tronco cerebral. Foram utilizadas técnicas de expressão gênica e proteica, além de imunofluorescência, para comparar animais com e sem inflamação sistêmica induzida por lipopolissacarídeo.
Os resultados mostraram que, mesmo em condições normais, o nervo depressor aórtico apresenta componentes-chave da sinalização imune inata, como receptores de reconhecimento de patógenos e citocinas. Isso indica que o nervo está em estado de vigilância imunológica contínua. Durante a inflamação, houve aumento da expressão de mediadores inflamatórios no nervo, e a atividade elétrica do nervo aumentou durante a diástole, quando a pressão arterial cai, sugerindo que a ativação ocorre por mediadores inflamatórios, e não por estiramento mecânico.
“Fisiologicamente, se o nervo depressor aórtico fosse ativado apenas por estímulos mecânicos, sua atividade deveria diminuir com a queda da pressão. Como aumentou, isso indica que foi ativado diretamente por mediadores inflamatórios circulantes”, explicou Fernanda. Para a equipe, a descoberta quebra um dogma de mais de um século de que os barorreceptores são exclusivamente sensores de estiramento mecânico.
Os pesquisadores acreditam que descrever esse circuito neuroimune pode contribuir para novas terapias contra doenças cardiovasculares e inflamatórias. Estratégias já estudadas para tratar hipertensão, como a ativação elétrica dos barorreceptores, poderiam ser analisadas sob a ótica da modulação imunológica. “A ativação do nervo depressor aórtico poderia estimular vias reflexas anti-inflamatórias, reduzindo citocinas pró-inflamatórias no sangue e controlando a inflamação na hipertensão”, sugeriu Fernanda.
