quarta-feira, 26 de agosto de 2026
Postado emSão Paulo, Vida e Saúde

Ebola na RDC: surto mais letal expõe falhas na resposta global

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Ebola na RDC: surto mais letal expõe falhas na resposta global
Ebola na RDC: surto mais letal expõe falhas na resposta global

A República Democrática do Congo enfrenta, desde maio de 2026, um surto de ebola que já se tornou o mais letal da história recente do país, com milhares de mortes. A epidemia atinge a província de Ituri, no leste, região marcada por conflitos armados, deslocamentos e dificuldade de acesso à saúde, o que agrava a disseminação da doença.

Para a pesquisadora Júlia Mori Aparecido, doutoranda em Relações Internacionais pela Unesp, a demora na identificação do vírus e a falta de vacinas específicas para a cepa atual são obstáculos críticos. O primeiro caso, um profissional de saúde, morreu em abril, mas a confirmação de ebola só veio semanas depois, após análises em Kinshasa. Esse atraso, segundo ela, impediu uma contenção inicial mais eficaz.

Além da resposta sanitária, a região enfrenta ataques a equipes de saúde e fuga de pacientes de centros de isolamento. A desconfiança da população, alimentada por surtos anteriores e pela interrupção de práticas tradicionais de luto, também dificulta as ações. “A resposta sanitária proíbe exatamente o que o luto exige naquela tradição: levar lavar o corpo, vestir, tocar e devolver para a terra de origem. Então, essa medida não é recebida como proteção. Ela é vivida como uma violação da dignidade”, explica Júlia.

A pesquisadora destaca ainda a crise de financiamento internacional. Com a dissolução da USAID e a saída dos EUA da OMS, a ajuda humanitária ao país em 2026 caiu para cerca de um quarto do valor de 2024. Reino Unido, Alemanha e Canadá também reduziram contribuições. “O que se perdeu não foi apenas o dinheiro, mas também a articulação. A agência era descrita como uma espécie de cola entre o Ministério da Saúde, as ONGs e os doadores”, afirma.

Júlia critica o gatilho da mobilização global: “A mobilização só acontece quando o risco parece se aproximar dos países que financiam o sistema, e não quando a mortalidade aumenta na origem do problema”. Ela defende que a segurança sanitária global precisa ser repensada para responder com equidade e eficácia a emergências em regiões vulneráveis.

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