A emergência do neoconcretismo no Rio de Janeiro não pode ser vista apenas como uma reação à rigidez do concretismo. Os artistas do Grupo Frente, como Lygia Clark, Hélio Oiticica e Lygia Pape, romperam com o vocabulário geométrico, deslocando a obra para o campo da experiência e da relação entre corpo, espaço e tempo. Essa mudança foi resultado de tensões institucionais e diferenças regionais.
O neoconcretismo não deve ser considerado uma evolução do concretismo, mas uma resposta às condições específicas do momento, como a centralidade do MAM-Rio e a influência de Mário Pedrosa. As divergências entre os ambientes artístico de São Paulo e do Rio de Janeiro também contribuíram para essa distinção, com o primeiro mais ligado ao industrialismo e o segundo mais voltado à subjetividade.
Teóricos brasileiros, como Mário Pedrosa e Aracy Amaral, desafiaram a ideia de uma linearidade entre os movimentos, evidenciando as complexidades políticas e regionais. A narrativa que apresenta o concretismo e o neoconcretismo como uma sequência natural precisa ser reavaliada, uma vez que constrói a ideia de um “destino” para a arte brasileira.
Na produção contemporânea, artistas como Rosana Paulino e Laís Myrrha questionam a suposta neutralidade das vanguardas construtivas. Paulino, em sua série Uma Geometria à Brasileira, utiliza a estética geométrica para abordar a experiência negra e feminina, enquanto Myrrha, em sua instalação Contraplano, confronta a monumentalidade modernista com as cicatrizes sociais e ecológicas da mineração.
Exposições recentes, como Direito à Forma e O que temos em comum?, demonstram o interesse contínuo pela produção construtiva no Brasil, questionando a ideia de universalidade da arte abstrata e revelando a fragmentação desse legado. Assim, a presença do construtivismo deve ser vista como um campo de forças em constante reconfiguração, onde artistas contemporâneos expõem as contradições das narrativas modernizadoras.
