SÃO PAULO (CAPITAL)
quarta-feira, 07 de outubro de 2026
SÃO PAULO (CAPITAL)
Postado emSão Paulo (Capital)

História do monumento Voluta Ascendente de Oscar Niemeyer em São Paulo

História do monumento Voluta Ascendente de Oscar Niemeyer em São Paulo
História do monumento Voluta Ascendente de Oscar Niemeyer em São Paulo
Publicidade

A Umapaz, vinculada à Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, abriga a exposição Cartografias de Gaia, onde se destaca a documentação sobre o monumento Voluta Ascendente, projetado por Oscar Niemeyer para o Parque Ibirapuera, que não foi inaugurado a tempo para as festividades do 4º Centenário de São Paulo.

Vinculada à Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente e com sede junto ao Parque Ibirapuera, a Umapaz (Universidade do Meio Ambiente e Cultura de Paz) é um departamento voltado para a educação ambiental e a promoção da sustentabilidade e da cultura de paz. Conforme se pode ler em seu site, a Umapaz “oferece atividades e cursos incentivadores de participação social na melhoria ambiental e na cultura de paz, por meio da educação ambiental, conscientizadora dos cuidados com os recursos naturais e o equilíbrio necessário para uma convivência harmônica entre sociedade e meio ambiente”.

Ao visitar a exposição Cartografias de Gaia, do artista Walter Miranda, na sede da Umapaz, tive também a oportunidade de conhecer melhor este departamento e seu sério e competente trabalho educativo desenvolvido em prol do meio ambiente. Foi neste dia que, capitaneado pela arquiteta e professora Helena Quintana Minchin, fui apresentado à documentação que mencionei acima.

Em uma das pastas de documentos de mais de setenta anos atrás, podemos encontrar, por exemplo, as plantas e os cálculos estruturais de um monumento, chamado de Voluta Ascendente, projetado por Oscar Niemeyer para a entrada principal do Parque Ibirapuera e que seria inaugurado junto a ele durante as festividades do 4º Centenário da cidade. Mas, voltemos um pouco no tempo.

A cidade de São Paulo completou 400 anos de existência oficialmente no dia 25 de janeiro de 1954. Eram ainda tempos conturbados por conta das desavenças com o governo de Getúlio Vargas e, por isso, planejou-se uma grande festa com foco na pujança de São Paulo. Um dos pontos altos seria a inauguração do Parque Ibirapuera, um projeto antigo e que começa a se viabilizar no final da década de 1940. Em 1951, a recém-criada Comissão do 4º Centenário ficou responsável pela condução de sua implementação a tempo das festividades. O parque como um todo foi projetado e implementado por Otávio Augusto Teixeira Mendes, enquanto suas edificações foram concebidas por Oscar Niemeyer com projetos estruturais de Joaquim Cardozo.

A ideia de um parque no local é, porém, muito mais antiga, datando da gestão do prefeito José Pires do Rio, na década de 1920. Por se tratar de um terreno alagadiço, a sua implementação só foi possível após uma drenagem incentivada pelo plantio de centenas de eucaliptos australianos feito por Manequinho Lopes, que atualmente empresta o seu nome para o principal viveiro do parque, anexo à Umapaz.

Ao invés de se usar a data de 25 de janeiro para as comemorações do quarto centenário da cidade, optou-se pelas datas de 9, 10 e 11 de julho, justamente por conta da Revolução Constitucionalista de 1932. Tal conflito ainda era uma ferida dura de ser curada para a elite paulista. No entanto, o Parque do Ibirapuera, que era considerado um presente à cidade por conta de tal efeméride, só foi inaugurado no dia 21 de agosto de 1954, em meio à crise política que assolava o País naquele mês (o atentado contra Carlos Lacerda havia ocorrido pouco mais de duas semanas antes, e o suicídio de Vargas ocorreria três dias depois).

Mas voltemos ao Voluta Ascendente. O monumento desenhado por Oscar Niemeyer representava uma espiral inclinada direcionada aos céus e tinha como objetivo expressar assim a pujança do povo paulista. Foi planejado para ser um símbolo poderoso, não só das festividades do quarto centenário, mas também de um novo tempo. O seu desenho esteve presente em medalhas e moedas comemorativas, em pôsteres e bandeiras. O famoso doce “Dadinho”, memória afetiva de muitos de nós, estampa em seu invólucro um pequeno desenho da Voluta. Aliás, o Dadinho tinha o nome inicial de “Doce do 4º Centenário” e, só depois, ganhou o apelido pelo qual é atualmente conhecido e saboreado. Houve também quem ornasse fachadas de suas casas com a forma da escultura comemorativa.

Prevista para ser erguida logo após a então entrada principal do parque, em frente ao Obelisco do Ibirapuera e, modo de dizer, dando as costas para o famoso pavilhão do parque, ela serviria como um excelente ponto de referência para a festa de inauguração.

Algo, porém, não funcionou conforme planejado. Na documentação a que tivemos acesso na Umapaz, pode-se ver plantas detalhadas, assim como o cálculo estrutural feitos pelos escritórios de engenharia de Walter Neuman e de José Carlos Figueiredo Ferraz, que viria a ser prefeito de São Paulo entre 1971 e 1973.

Há um primeiro estudo assinado pelo engenheiro Zenon Lotufo (em nome dos arquitetos) e datado de janeiro de 1953, no qual são detalhados a haste e o bloco de fundação e que é acompanhado do memorial descritivo. O documento também menciona a existência de uma maquete do monumento acompanhando aquele estudo. De acordo com ele, a “haste será oca, tendo as suas paredes de aço fundido, a espessura constante de oito centímetros. O seu comprimento total será de 17,50 metros, e penetrará, com uma inclinação de 60 graus, em relação à horizontal, cerca de 1,90 metros, no concreto da base”. O documento segue descrevendo outros detalhes técnicos da estrutura. Cabe ressaltar que o projeto inicial de Niemeyer previa uma inclinação de 45 graus em relação à horizontal, o que, aparentemente, não foi considerado tecnicamente factível naquele momento. Desenhos mais detalhados, datados de janeiro de 1954 e realizados pelo escritório de Figueiredo Ferraz, também se encontram entre a documentação consultada na Umapaz.

Há também um orçamento de execução datado de 15 de junho de 1954 encaminhado pela empresa EsMeL – Estruturas Metálicas Ltda – à Comissão do 4º Centenário da Cidade de São Paulo. A mesma empresa seria a responsável pela cúpula do Ginásio de Esportes do Ibirapuera, também em construção. De acordo com o orçamento enviado, a empresa se propunha a entregar o monumento no prazo de 55 dias após a assinatura do contrato. A empresa ainda necessitaria de dez dias para apresentar os cálculos, plantas e demais detalhes do monumento que deveria ter, de acordo com eles, 12 metros de altura. O valor a ser contratado seria de Cr$ 3.700.000,00 (três milhões e setecentos mil cruzeiros), ou, em valores atualizados, quase R$ 4,2 milhões. O documento leva um visto do engenheiro Vital datado de 18 de junho, mas nada indica, na documentação consultada, que esta empresa foi realmente a responsável pela execução da Voluta, nem o que foi realmente seguido das plantas e cálculos lá anexados.

Independentemente disso, o fato é que a Voluta não ficou pronta a tempo e, de última hora e de forma improvisada, ela foi substituída por uma armação de concreto coberta de juta e gesso. Apesar de ter servido, e bem, às festividades daquele mês, a se fiar nos satisfeitos sorrisos das autoridades presentes, pouco tempo se passou até ela se desfazer, vítima das intempéries que a cidade de São Paulo costuma sofrer de tempos em tempos. O que sobrou foi simplesmente retirado, deixando só lembranças no local. Foi-se assim, de forma melancólica, o precioso símbolo que representaria o futuro dos paulistas. Até hoje, espera-se que se cumpra a promessa de reerguê-la. Seguramente, com o desenvolvimento técnico atual, seria possível construí-la conforme o planejado por Oscar Niemeyer, a 45 graus de inclinação e indicando um brilhante futuro.

Compartilhar: WhatsApp Facebook X LinkedIn
📬
Fique por dentro de São Paulo Receba as principais notícias no seu e-mail, gratuitamente.


    ← Anterior Fundo Social de SP abre visitação para leilão de 258 lotes de bens inservíveis Próxima → Sebrae-SP promove 2º Fórum de Agro Sustentabilidade em Franca