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quarta-feira, 07 de outubro de 2026
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Professora da USP é premiada no Prêmio Paulo Freire 2026 em São Paulo

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Professora da USP é premiada no Prêmio Paulo Freire 2026 em São Paulo
Professora da USP é premiada no Prêmio Paulo Freire 2026 em São Paulo

Desenvolvido por doutoranda da Faculdade de Educação da USP na rede municipal de São Paulo, trabalho premiado articula práticas corporais, escuta das crianças e diferentes formas de vivenciar manifestações culturais.

Da perna de pau ao breaking, diferentes formas de movimentar o corpo podem se transformar em experiências de aprendizagem na educação infantil. É a partir dessa perspectiva que a professora da rede municipal de ensino de São Paulo Cyndel Nunes Augusto desenvolveu o trabalho Tematizando as práticas corporais na educação infantil: da perna de pau ao breaking, segundo colocado na 21ª edição do Prêmio Paulo Freire 2026 de Qualidade do Ensino Municipal, concedido pela Câmara Municipal de São Paulo.

Cyndel, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação (FE) da USP, desenvolveu o trabalho na Escola Municipal de Educação Infantil Monteiro Lobato, situada na região central da cidade de São Paulo. A proposta pedagógica reúne duas tematizações realizadas em 2025 e evidencia como as práticas corporais podem ser abordadas na educação infantil a partir das questões formuladas pelas crianças, do acesso a diferentes fontes, das vivências corporais e do diálogo com pessoas que conhecem e praticam essas manifestações.

A pesquisa sobre o Carnaval, realizada no início do ano por sua relevância no calendário brasileiro e sua importância como manifestação cultural, levou a professora Cyndel a convidar Amanda Araújo, integrante do grupo Ilú Oba De Min, para conversar com as crianças sobre sua experiência como pernalta no bloco e sua participação na construção dos desfiles. “As crianças se encantaram com aquela mulher tão alta chegando à escola”, conta a pesquisadora. Amanda usava as roupas do desfile de 2025, que homenageou Lia de Itamaracá, e despertou o interesse da turma pela perna de pau.

A partir da experiência, as crianças passaram a investigar formas de reproduzir a caminhada sobre pernas de pau com materiais disponíveis na sala. Experimentaram pinhas, cascas de coco e pés de lata e chegaram a produzir seus próprios pés de papelão. “Ao observar essas brincadeiras, os dizeres das crianças e a maneira como as documentações oficiais — desde o Currículo da Cidade de São Paulo até o PPP da escola — anunciam o trabalho com processos investigativos junto às crianças, escolhemos tematizar a perna de pau”, explica Cyndel.

Meses depois, ao final da investigação, a turma visitou o Picadeiro Aberto do Centro de Memória do Circo, na Galeria Olido, no Centro de São Paulo. Entre as apresentações, o breaking foi o que mais chamou a atenção das crianças, que ficaram especialmente interessadas nas “duas meninas de branco” que dançavam. “Diante desses dizeres, do interesse que as crianças já demonstravam pela dança como prática corporal e da necessidade de equilibrar as práticas tematizadas com a turma, decidi tematizar o breaking”, afirma a pesquisadora.

A condução das duas tematizações dialoga com o conceito de artistagem. “Nessa perspectiva, a docência envolve criação, experimentação e composição de percursos pedagógicos que não estão definidos de antemão. Os encaminhamentos são produzidos no decorrer do trabalho, em atenção ao que emerge dos encontros entre as crianças, as práticas corporais, os diferentes saberes e as situações vividas”, explica Marcos Garcia Neira, professor da FE e orientador do trabalho, que também é pró-reitor de Graduação da USP.

De acordo com o orientador, a documentação pedagógica participa desse movimento ao tornar visíveis falas, gestos, experiências, dúvidas e produções das crianças. “Mais do que registrar aquilo que já aconteceu, contribui para a leitura do percurso e para a definição de novos encaminhamentos, permitindo que a tematização seja continuamente reelaborada”, destaca Neira, ressaltando que as crianças constituem-se como coautoras do currículo.

Para ele, o trabalho premiado evidencia também as possibilidades de interlocução entre a universidade pública e a educação básica. “Ao reconhecer os conhecimentos produzidos cotidianamente nas escolas e fortalecer o diálogo com suas professoras e seus professores, essa aproximação contribui para a construção de currículos comprometidos com a justiça social e a descolonização”, afirma.

A pesquisa acadêmica tem relação direta com a prática pedagógica de Cyndel, que desenvolve no doutorado estudos sobre o currículo cultural da educação física e questões de gênero. Para ela, a pós-graduação contribui para ampliar os sentidos atribuídos ao trabalho em sala de aula a partir do contato com autores, colegas de pesquisa, grupos de estudo e da sistematização dos conhecimentos produzidos pela investigação.

“Entendo que o ato de pesquisar nos coloca em uma posição constante de investigação, tornando-nos pessoas curiosas diante daquilo que observamos e abertas a novas significações”, afirma a pesquisadora. Essa perspectiva, segundo ela, também está presente no cotidiano com as crianças, em que a prática é construída a partir dos encontros, dos dizeres, das materialidades acessadas em conjunto, dos colegas de trabalho e das situações vividas na escola, sem respostas previamente definidas.

Cyndel destaca ainda uma característica que considera importante nas pesquisas sobre o currículo cultural da educação física: a perspectiva não foi criada no ambiente acadêmico para depois ser aplicada nas escolas. “Ela emerge das experiências de docentes que estão no chão da escola e que, ao se inquietarem diante das novas demandas que surgem, empenham-se em construir alternativas às práticas que até então vinham sendo desenvolvidas”, conclui.

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