O Prêmio Nobel de Medicina deste ano foi concedido a Karl Deisseroth, Peter Hegemann e Georg Nagel, cujas descobertas originaram a optogenética, uma técnica que utiliza luz para ativar ou inibir células. Essa pesquisa, que começou com uma alga microscópica, agora é investigada como tratamento experimental para a retinose pigmentar, uma condição que causa a morte das células da retina responsáveis pela percepção de luz.
O médico retinólogo Rodrigo Jorge, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, explica que a pesquisa começou com a alga Chlamydomonas, que possui proteínas sensíveis à luz. Essas proteínas, chamadas canalrodopsinas, permitem que a alga se mova em direção à luz. Os estudos sobre essas proteínas foram publicados entre 2002 e 2003.
Em 2005, Deisseroth e sua equipe introduziram o material genético dessas proteínas em neurônios de mamíferos, fazendo com que respondessem à luz. Essa técnica possibilitou o desenvolvimento de ferramentas para estudar o cérebro, permitindo a ativação ou inibição de regiões específicas.
Na oftalmologia, a optogenética está sendo testada em pacientes com retinose pigmentar, onde células da retina que não captam luz podem ser tornadas sensíveis a ela. Rodrigo Jorge menciona dois estudos, Pioneer e Restore, que utilizam abordagens diferentes para estimular as células retinianas.
No estudo Pioneer, os pacientes usam óculos que transformam a luz ambiente em estímulos luminosos, permitindo que eles localizem e toquem objetos. No Restore, a proteína sensível à luz é introduzida em células bipolares da retina, resultando em melhorias na acuidade visual em alguns pacientes.
O tratamento do Restore, chamado Mogenry, teve seu pedido de registro aceito para análise pela agência reguladora de medicamentos dos EUA, mas ainda não foi aprovado. Jorge ressalta que os dados dos estudos precisam ser publicados em revistas científicas e que o acesso no Brasil dependerá da avaliação da Anvisa e de etapas para incorporação ao SUS.
Embora os avanços sejam promissores, o professor alerta que as expectativas devem ser de melhora funcional, não de cura.