A tese de doutorado de Wellington Tibério, da USP, mostra como a transformação dos cursos d’água de São Paulo apagou sua presença do cotidiano e da memória da população.
Ação do coletivo (se)cura humana, criado por Flavio Barollo e Wellington Tibério, bombeou água do Rio Tamanduateí para criação de um lago na exposição Jardinalidades, no Sesc Parque Dom Pedro II. O coletivo usa os rios paulistanos para questionar o desenvolvimento urbano – Foto: Jennifer Glass/Cedida por Wellington Tibério
Debaixo de ruas, avenidas e bairros de São Paulo correm rios que desapareceram da paisagem e, em muitos casos, também da memória dos moradores. A canalização e o tamponamento dos cursos d’água não apenas esconderam fisicamente os rios sob o concreto, mas contribuíram para afastá-los da experiência cotidiana da população. É o que mostra a tese de doutorado de Wellington Tibério, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, que analisou como a transformação dos rios participou da construção da metrópole paulistana.
O estudo também coloca em perspectiva o desconhecimento da população sobre a quantidade de rios que atravessam a cidade sem serem notados, sugerindo que o apagamento dos fluxos modificou não apenas a paisagem, mas também a relação dos habitantes com a natureza.
O estudo mostra que esse apagamento ocorreu em duas dimensões: física, com a canalização e a cobertura dos cursos d’água; e cultural, à medida que os rios deixaram de ser reconhecidos como parte da cidade. O processo modificou a paisagem urbana e também a maneira como os habitantes percebem a natureza e os lugares onde vivem.
O córrego Anhanguera recebendo as águas do córrego Pacaembu antes de desaguar no Tietê – Foto: Wellington Tibério/Arquivo pessoal
A transformação dos rios de São Paulo não começou com a metrópole contemporânea. Um dos primeiros alvos das intervenções foi o rio Tamanduateí. Em 1848, obras de retificação alteraram seu curso e eliminaram as chamadas Sete Voltas, conjunto de curvas que existia na região da colina histórica, onde começou o povoamento de São Paulo.
Ao longo do século 19, o rio, que desempenhava funções econômicas e sociais importantes, passou progressivamente a ser visto como fonte de problemas, associado a enchentes e disseminação de doenças, além de ser visto como um obstáculo à expansão da cidade.
A partir de 1970, com o intenso processo de urbanização, aumentou a pressão sobre as áreas ocupadas por rios e córregos de toda a cidade. A construção de avenidas de fundo de vale — implantadas sobre ou ao lado dos cursos d’água, frequentemente acompanhada pela retificação e canalização dos rios — consolidou-se como intervenção urbana. O tamponamento dos córregos e rios passou a integrar as políticas de expansão da cidade.
A transformação das várzeas também liberou áreas para novos usos. No caso do Tamanduateí, esses espaços eram ocupados por atividades econômicas, de lazer e recreação, e eram importantes para a circulação de mercadorias. Com as intervenções, foram progressivamente liberados para iniciativas de “embelezamento” urbano, projetos de ocupação e especulação imobiliária.
Além disso, Wellington Tibério conta que os cursos d’água que serpenteavam pelas várzeas tinham a função pouco nobre de carregar os dejetos produzidos pela cidade. A solução adotada foi retificá-los e canalizá-los para acelerar o escoamento.
“A ciência e a técnica daquele período poderiam ter produzido alternativas de coleta e tratamento dos dejetos, mas não foi esse o encaminhamento feito. O interesse não era apenas em resolver o problema da poluição, mas também se apropriar das terras das várzeas”, conta.
Esse processo estava relacionado a uma determinada concepção de modernização da cidade. Em planos urbanísticos do século 20, rios e vales chegaram a ser tratados como obstáculos à expansão do tecido urbano, enquanto áreas de várzea e populações que viviam nesses locais passaram a ser considerados incompatíveis com o projeto de uma cidade moderna, salubre e organizada.
A remodelação dessas áreas esteve, assim, relacionada tanto à transformação da natureza quanto à expulsão de populações empobrecidas de determinadas regiões.
Para o pesquisador, esse processo ajuda a compreender o ponto central do trabalho: a cidade não apenas é produzida pelas pessoas, mas também as produz. Ela também condiciona a maneira como as pessoas vivem e percebem a cidade.
“Quando a materialidade da cidade é produzida, ela produz um jeito de agir, consequentemente um jeito de pensar e um jeito de ser”, afirma.
No caso dos rios, essa lógica orienta o principal argumento do trabalho, que explica por que o enterramento teve efeitos muito além de esconder a água.
A cidade herdada funciona como uma espécie de moldura para a ação. É inevitável que a “selva de pedra” estabeleça condições materiais que delimitam o que parece possível ou impossível, fazendo com que determinadas construções históricas pareçam naturais, como se a cidade sempre tivesse sido daquela maneira.
De acordo com o geógrafo, o projeto político que teve como efeito prático o desaparecimento dos rios produziu um certo ser humano “afeito ao concreto, afeito ao asfalto e com uma certa fobia a aspectos da natureza”. Isso não significa que o tamponamento tenha feito as pessoas odiarem a natureza. Mas, depois de escondidos, os rios deixaram de fazer parte da experiência cotidiana de boa parte da população — e isso ajudou a tornar o próprio enterramento algo desejável ou normal.
Identificação da disputa de uma área nas nascentes do córrego Saracura – Foto: Wellington Tibério/Arquivo pessoal
“O discurso microbiológico, o conforto da água encanada, a ideia de inutilidade das áreas de várzea, os medos sanitaristas, o ideal da organização planejada, o sonho com a modernidade e o progresso produziram um sujeito que passou a demandar canalização e tamponamento de rios e córregos, passou a desejar concreto e asfalto”, resume o pesquisador.
O trabalho conclui que a cidade de concreto não é apenas consequência das escolhas passadas. Ela passa a produzir novas necessidades e comportamentos que ajudam a reproduzi-la.
A própria experiência de Wellington Tibério ajuda a ilustrar esse processo. “Eu nasci numa cidade sem rios”, conta. Embora houvesse um rio próximo à escola que frequentava, ele não o reconhecia como tal: “Era um canal de esgoto”.
O Tietê também não era percebido como rio durante sua infância e adolescência, mas como um canal de esgoto associado à sujeira. Hoje, porém, o pesquisador vê uma experiência diferente na relação do filho com a cidade.
<p“Mas para o meu filho, que tem 10 anos, a cidade dele tem rios de novo”, afirma. Segundo o geógrafo, o menino já teve contato com as águas do rio Água Preta e frequenta um lago próximo de casa onde há peixes.
Recentemente, projetos socioambientais têm lutado pela retomada da convivência com as águas no imaginário da população, mobilizando novas disputas pela recuperação dos rios no espaço urbano.
<p“A retomada desses rios pressupõe uma retomada da capacidade de imaginar a cidade. Então, a primeira frente de luta é no campo do imaginário, para que depois isso se torne materialidade”, afirma.
Segundo o pesquisador, o que leva as pessoas a lutar pela reabertura dos rios é, em primeiro lugar, o espanto em relação ao fato de que a cidade fez isso com algo tão importante como a água. A partir do espanto, surge o estranhamento a respeito do processo que levou a essa situação.
Mas a retomada dos rios também é uma disputa sobre o sujeito. “É como se a gente não quisesse mais ser o que nos tornamos ao longo desse processo. A gente procura uma outra cidade, um outro sujeito”, afirma Wellington Tibério.
O trabalho analisa práticas de localizar nascentes, identificar rios escondidos, cavar lagos, estabelecer contato físico com terra e água, realizar intervenções artísticas e criar novas formas de circulação e experiência nesses lugares como formas de experimentar a cidade de outra maneira, abrindo espaço para novas relações com a natureza.