Pesquisadores do Instituto Max Planck de Geoantropologia levantam preocupações sobre a falta de transparência no processo que resultou na rejeição da proposta de reconhecimento do Antropoceno como uma nova época geológica. O artigo, publicado na revista Earth’s Future, destaca possíveis irregularidades na votação e a ausência de justificativas científicas para a decisão.
O termo Antropoceno, que se refere ao período em que as atividades humanas impactam significativamente o planeta, ganhou destaque nas últimas décadas. A proposta de formalização da nova época geológica tinha como marco inicial o ano de 1952, relacionado a registros de materiais radioativos dos testes de bombas de hidrogênio.
Apresentada em março de 2024 à União Internacional de Ciências Geológicas, a proposta foi rejeitada. Os autores do artigo pedem esclarecimentos sobre a validade da votação e os fundamentos científicos da decisão, enquanto a época geológica reconhecida permanece sendo o Holoceno, iniciado há cerca de 11,7 mil anos.
Stelio Marras, professor de Antropologia do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, enfatiza que a discussão não é sobre a existência dos impactos humanos, mas sobre sua dimensão geológica. Ele ressalta que a forma como a ação humana ocorre pode ter efeitos benéficos ou prejudiciais ao meio ambiente.
O conceito de Antropoceno também amplia o campo de investigação da antropologia, que passa a considerar as relações entre sociedades humanas e outros seres vivos. Marras argumenta que é fundamental integrar as dimensões social e ambiental, propondo uma abordagem socioambiental.
O pesquisador destaca a importância de repensar as relações da humanidade com o planeta, sugerindo que a transformação deve ser coletiva e consensual, especialmente diante dos desafios das mudanças climáticas. Ele alerta que o negacionismo das mudanças ecológicas pode ser uma tentativa de preservar formas de vida que ignoram os impactos humanos.
