Uma ação pictórica que abrange um convite de compartilhamento e questões sobre espaço público, liberdade de opinião e criação, consciência social e necessidade de arte. Esta é a definição de grafite dada pela professora Sandra Reimão, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, no livro Nos Muros da Cidade – Livros e Leituras em Grafites de São Paulo, que acaba de ser lançado pela Ateliê Editorial.
No livro, Reimão e sete colaboradores abordam, em cinco capítulos, as formas, os significados e as funções sociais, culturais e políticas da prática do grafite na cidade de São Paulo. A obra surgiu como um trabalho coletivo de pesquisas da autora com seus alunos na EACH, com apoio das professoras Jane Aparecida Marques e Manuella Vieira Reale.
O surgimento e a expansão do grafite na capital paulista são comentados por Reimão no primeiro capítulo do livro, “Breve cronologia sobre o grafite na cidade de São Paulo a partir dos anos 1970″. Nele, a professora conta que o artista Alex Vallauri foi de “grande importância” para a difusão do grafite no cenário brasileiro, trazendo mais visibilidade para essa arte durante os anos 1980 e tirando-a da posição de expressão marginal de cultura. Por isso, o dia da morte do artista, ocorrida em 27 de abril de 1987, se tornou o Dia do Grafite, oficializado no calendário de São Paulo. Os decênios de 1990 e 2000 foram a época de expansão e consolidação do grafite, com a desvinculação gradual do estigma sobre a arte, até sua descriminalização no Brasil no governo da presidente Dilma Rousseff, que, em 2011, despenalizou o ato de grafitar “quando autorizado e realizado em prol da manifestação artística”. A partir de 2017, na gestão do prefeito de São Paulo Fernando Haddad, o grafite passou a contar com políticas de incentivo e apoio institucional na cidade.
O segundo capítulo de Nos Muros da Cidade aborda um tema recorrente dos grafites paulistanos: as cenas de leitura. Reimão analisa três murais-grafite espalhados pela cidade que trazem a relação de crianças de diversos aspectos étnicos com livros, como forma de incentivo ao estudo e à cultura. “O autor enfatiza tanto a leitura individual silenciosa quanto a leitura compartilhada e discutida como fontes de alegria”, nota a professora, citando que todos os grafites retratam o envolvimento das crianças com o texto de forma positiva.
Nessa mesma linha de reflexão, o terceiro capítulo, “Sobre o direito à arte e à literatura”, destaca o painel Agora Eu Tenho Um Unicórnio, de Sé Cordeiro, pintado na parede de um conjunto habitacional na Vila Monte Alegre, na zona sul paulistana, com o retrato de uma menina lendo em meio a um mundo fantasioso, que ganha vida conforme a imaginação. “Essa representação do direito de fabular mediada pelo acesso a um livro pode contribuir para estimular nessas pessoas a vontade de ler e de sonhar”, completa Reimão.
O quarto capítulo, “Bart Simpson leitor?: metalinguagem e ressignificação”, aborda uma pintura no muro da Escola Estadual Heckel Tavares, no Jardim Helena, na zona leste da capital, feita a partir de um desenho do aluno vencedor de um concurso. O desenho traz o personagem Bart Simpson, da série de TV estadunidense Os Simpsons, que a autora analisa como um símbolo da cultura pop e arquétipo do menino que não se importa em estudar, retratado lendo um livro e demonstrando interesse. Ao redor dele aparecem balões de pensamento, representando a leitura como forma de aprender a questionar. Segundo Reimão, “é possível observar que o autor da pintura buscou trazer a ideia de que mesmo os alunos mais ‘delinquentes’ da escola podem se envolver e desfrutar do ato da leitura”.
“Livro e catequização: religiosos e indígenas”, quinto e último capítulo do livro, traz reflexões sobre a arte de rua na América Latina. A partir de análises do antropólogo argentino Néstor Canclini, a autora argumenta que o grafite pode ser uma forma de reivindicação do espaço urbano por parte de culturas marginalizadas, bem como uma maneira de criar diálogos interculturais e promover diversidade cultural nas cidades. Ela compara dois murais: um de 1944, na parede da E.E. Professora Marina Cintra, na região central de São Paulo, que retrata duas crianças ameríndias aprendendo a ler com o jesuíta José de Anchieta, e uma releitura dessa obra num mural-grafite de 2021, instalado no bairro do Jaraguá, que inverte a situação ao colocar uma criança indígena no centro e dois padres jesuítas na posição de aprendizes. “Nossa ancestralidade é indígena. Trata-se de estabelecer um diálogo do presente com o passado”, escreve Sandra Reimão.
Nos Muros da Cidade – Livros e Leituras em Grafites de São Paulo, de Sandra Reimão, Ateliê Editorial, 128 páginas, R$ 56,00