Na última quarta-feira (29), eventos climáticos extremos atingiram diversas regiões do Brasil, deixando mortos e feridos. No Rio Grande do Sul, um tornado causou danos em três municípios; no Rio de Janeiro, ventos de até 90 km/h provocaram transtornos; e em São Paulo, rajadas de 120 km/h também causaram destruição. No mesmo dia, durante a reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), especialistas discutiram a preparação das cidades para o El Niño 2026–2027, que pode ser um dos mais intensos já registrados.
O El Niño foi confirmado pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) em 11 de junho. Meteorologistas estimam 63% de chance de a temperatura do Pacífico Equatorial ultrapassar 2°C, o que classificaria o fenômeno como “muito forte”. No entanto, José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden e docente da Unesp, alerta que a intensidade do El Niño não determina, sozinha, a dimensão dos desastres.
“Fala-se que o El Niño vai gerar mais desastres, mas isso não necessariamente vai ocorrer. Pode acontecer de cair muita chuva em uma região, mas se os administradores tiverem aprendido a lição deixada pelos eventos anteriores e tiverem construído barreiras de proteção ou limpado os bueiros, o impacto diminui”, explica Marengo. Ele ressalta que os eventos desta semana não foram causados pelo El Niño, mas pela combinação de uma frente fria com uma massa de ar quente e seco, gerando frentes de rajada.
O pesquisador também destaca que o aquecimento global é um fator crucial. A combinação entre El Niño e aquecimento global pode elevar ainda mais as temperaturas. Historicamente, o El Niño aumenta as chuvas no Sul e causa secas no Norte e Nordeste, afetando a Amazônia e o Pantanal. O Cemaden tem realizado reuniões mensais com a Casa Civil e o Ministério da Ciência para discutir medidas preventivas.
Marengo cita avanços, como a reconstrução das comportas do Lago Guaíba no Rio Grande do Sul, que falharam em 2024, e a preparação de brigadas de incêndio em Mato Grosso e Amazonas. “Um lado positivo de todo esse alarde é que o governo escutou”, afirma. O Cemaden também investe em educação e em boletins mensais sobre o El Niño, além de reuniões públicas para discutir impactos e prevenção.