sábado, 22 de agosto de 2026
Postado emSão Paulo, Vida e Saúde

Fome vai além da falta de comida, aponta pesquisa da USP

Fome vai além da falta de comida, aponta pesquisa da USP
Fome vai além da falta de comida, aponta pesquisa da USP
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Uma pesquisa do Instituto de Psicologia (IP) da USP propõe que a fome seja compreendida para além da privação de alimentos, como resultado de processos históricos, políticos e sociais que provocam impactos profundos na saúde psíquica. O estudo foi realizado no período em que o Brasil voltou ao Mapa da Fome, em 2022, e deixou a lista em 2024.

Segundo a psicóloga e psicanalista Júlia Louzada, autora da dissertação de mestrado ‘Fome: do tabu ao mal-estar’, orientada pela professora Miriam Debieux Rosa, ‘a fome restringe a vida somente à busca pela sobrevivência. A ausência de comida funciona como um sintoma social que desperta sentimentos humanos como angústia, vergonha, culpa e horror’.

A pesquisa articula conceitos da psicanálise de Sigmund Freud às reflexões de Josué de Castro, pioneiro nos estudos sobre a fome no Brasil. O trabalho também parte da experiência da pesquisadora como voluntária em cozinhas populares e solidárias de São Paulo durante a pandemia de covid-19.

Naquele período, cerca de 33,1 milhões de brasileiros viviam em situação de fome e aproximadamente 125 milhões enfrentavam algum grau de insegurança alimentar, segundo a Rede Penssan. ‘Isso significa que cerca de dois terços da população brasileira não tinham acesso regular a alimentos suficientes e de qualidade’, destaca Júlia.

Para a professora Miriam, ‘a fome representa uma forma de violência que não atinge apenas o corpo, mas também a identidade, a autoestima e a percepção de fazer parte da vida em sociedade’. A privação alimentar fragiliza vínculos sociais, compromete a confiança no outro e reduz perspectivas de futuro.

A pesquisa destaca que a vergonha funciona como uma barreira psicológica que silencia quem passa fome. ‘Ao guardar a dor para si por constrangimento, o indivíduo não consegue dar nome ao que sente e, consequentemente, não consegue enxergar a fome como um problema social e político que exige direitos’, explica Júlia.

A dissertação ‘Fome: do tabo ao mal-estar’ foi defendida no IP-USP e em breve estará disponível na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP. Mais informações: Júlia Louzada ([email protected]) e Miriam Debieux Rosa ([email protected]).

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