Uma pesquisa do Instituto de Psicologia (IP) da USP propõe que a fome seja compreendida para além da privação de alimentos, como resultado de processos históricos, políticos e sociais que provocam impactos profundos na saúde psíquica. O estudo foi realizado no período em que o Brasil voltou ao Mapa da Fome, em 2022, e deixou a lista em 2024.
Segundo a psicóloga e psicanalista Júlia Louzada, autora da dissertação de mestrado ‘Fome: do tabu ao mal-estar’, orientada pela professora Miriam Debieux Rosa, ‘a fome restringe a vida somente à busca pela sobrevivência. A ausência de comida funciona como um sintoma social que desperta sentimentos humanos como angústia, vergonha, culpa e horror’.
A pesquisa articula conceitos da psicanálise de Sigmund Freud às reflexões de Josué de Castro, pioneiro nos estudos sobre a fome no Brasil. O trabalho também parte da experiência da pesquisadora como voluntária em cozinhas populares e solidárias de São Paulo durante a pandemia de covid-19.
Naquele período, cerca de 33,1 milhões de brasileiros viviam em situação de fome e aproximadamente 125 milhões enfrentavam algum grau de insegurança alimentar, segundo a Rede Penssan. ‘Isso significa que cerca de dois terços da população brasileira não tinham acesso regular a alimentos suficientes e de qualidade’, destaca Júlia.
Para a professora Miriam, ‘a fome representa uma forma de violência que não atinge apenas o corpo, mas também a identidade, a autoestima e a percepção de fazer parte da vida em sociedade’. A privação alimentar fragiliza vínculos sociais, compromete a confiança no outro e reduz perspectivas de futuro.
A pesquisa destaca que a vergonha funciona como uma barreira psicológica que silencia quem passa fome. ‘Ao guardar a dor para si por constrangimento, o indivíduo não consegue dar nome ao que sente e, consequentemente, não consegue enxergar a fome como um problema social e político que exige direitos’, explica Júlia.
A dissertação ‘Fome: do tabo ao mal-estar’ foi defendida no IP-USP e em breve estará disponível na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP. Mais informações: Júlia Louzada ([email protected]) e Miriam Debieux Rosa ([email protected]).
