Usuários de redes sociais na China têm compartilhado vídeos violentos com uma boneca chamada Natasha, um brinquedo antiestresse que vem sendo alvo de chutes, marteladas, facadas e até atos de natureza sexual. As imagens, que circulam amplamente, acendem um alerta para a banalização da violência contra crianças.
Para a psicóloga Maria Beatriz Martins Linhares, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, o contato constante com esses conteúdos reduz a percepção da gravidade da violência e pode enfraquecer as normas sociais de proteção à infância. “Quando comportamentos agressivos são apresentados de forma divertida e amplamente compartilhados, aumenta a probabilidade de serem vistos como socialmente aceitos”, afirma.
A especialista também destaca o papel dos influenciadores digitais, que atuam como modelos para os jovens e podem agravar a situação. Além disso, a boneca negra é a mais usada nos vídeos, reforçando estereótipos raciais e a discriminação. “Essa repetição de estereótipos fortalece vieses implícitos, aumentando também a discriminação e a desigualdade”, alerta.
Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostram que a desigualdade racial atinge crianças e adolescentes: entre 0 e 11 anos, 62,6% das vítimas de letalidade são negras; na faixa de 12 a 17 anos, o percentual sobe para 86,3%.
Para mudar essa realidade, a professora defende o fortalecimento da educação midiática e digital desde a infância, além de maior responsabilidade das plataformas digitais na remoção de conteúdos violentos. “Nós precisamos de implementação e fortalecimento de políticas públicas voltadas à proteção da infância no ambiente digital”, conclui.
