Pesquisadores da USP alertam que o Super El Niño previsto para 2026-2027 pode agravar a situação de vulnerabilidade nas comunidades periféricas de Moçambique. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA já elevou o alerta para um evento forte, com potencial de afetar a segurança alimentar de milhões de moçambicanos.
A discussão sobre o El Niño geralmente foca na falta de chuvas e nas perdas agrícolas, mas ignora o sofrimento térmico enfrentado por famílias sem recursos. A desigualdade social é amplificada por esses fenômenos climáticos, revelando que a vulnerabilidade não é apenas geográfica, mas também econômica.
As comunidades periféricas, como Chamanculo e Maxaquene em Maputo, são caracterizadas por habitações precárias e falta de infraestrutura, onde a privação se acumula. Mais de 70% da população vive em áreas rurais, mas o crescimento urbano ocorre principalmente em bairros informais.
A intersecção entre vulnerabilidade socioecológica e condições econômicas é crucial. A falta de recursos impede que famílias adquiram ventiladores ou mantenham uma casa adequada, exacerbando os impactos de ondas de calor. O estudo de caso do bairro Mafalala mostra que temperaturas internas podem chegar a 49°C, destacando a relação entre materiais de construção e renda.
Estressores não climáticos, como a renda e a infraestrutura, são determinantes na experiência do calor e na saúde das comunidades. A falta de saneamento adequado e a presença de água contaminada em altas temperaturas contribuem para doenças, mostrando que a crise climática e a crise econômica são interligadas.