Vídeos gerados por inteligência artificial que reproduzem a imagem e a voz do ex‑presidente Jair Bolsonaro aparecem no TikTok, pedindo apoio ao filho Flávio Bolsonaro e, em outros casos, criticando‑o, apesar de o ex‑presidente estar preso em regime domiciliar e proibido de usar redes sociais.
Em um dos clipes, o avatar de “Bolsonaro” chora e diz: “Gente, está difícil para nós” e acrescenta: “Peço que apertem na cruz abaixo da minha foto e me ajudem a ganhar esta eleição”. Em outro, ele aparece ao lado de Flávio e declara: “Vamos mostrar nossa força e vencer ainda no primeiro turno”. Um terceiro vídeo, intitulado “Bomba!”, afirma: “Eu acabo de receber um alvará de liberdade para minha candidatura. Então, se você me apoia, aperta todos os botões ao lado e mande esse vídeo para três amigos”. Há ainda mensagens como “Não vamos deixar o PT acabar com o Brasil” e “Venho nesse vídeo feito por IA pedir a todos vocês que não percam seu tempo em outubro votando no meu filho”.
Na convenção do Partido Liberal (PL) que oficializou a candidatura de Flávio, foi exibido um vídeo de menos de um minuto em que o avatar do pai aparece dizendo: “isso que vocês estão vendo” não é Bolsonaro. “Isso é uma simulação da minha imagem e da minha voz feita com inteligência artificial”. Em seguida, ele solicita: “Peço que vocês recebam de braços abertos a pessoa que escolhi para me substituir, sangue do meu sangue, meu filho Flávio. Vem com fé, o Brasil tem futuro, e o futuro é Flávio Bolsonaro presidente”.
A Justiça Eleitoral tem proibição expressa ao uso de deepfakes nas propagandas eleitorais, conforme a resolução 23.610/2019, que veda a prática mesmo que haja autorização. O advogado Alberto Rollo, da PUC‑SP, entende que a regra é clara, mas aponta dúvidas sobre sua aplicação na fase de pré‑campanha. Já o professor Fernando Neisser, da FGV/SP, afirma que a proibição vale também no período pré‑eleitoral. O PT, por meio da Federação Brasil da Esperança, apresentou representação por propaganda eleitoral antecipada contra o PL e a candidatura de Flávio, tendo o ministro Kassio Nunes Marques sido designado relator.
O ministro Alexandre de Moraes, do STF, concedeu 48 horas para a defesa de Jair Bolsonaro esclarecer se autorizou o uso de sua imagem e voz nos vídeos. A defesa respondeu que não houve autorização, ressaltando que o ex‑presidente está com o direito de visitas suspenso e que Flávio também está proibido de visitá‑lo. Moraes alertou que a eventual concordância poderia configurar nova violação judicial, com risco de revogação da prisão domiciliar.
