Um estudo acadêmico publicado na Revista Brasileira de Sociologia analisou as invasões à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, ocorridas em 2025, e concluiu que os ataques integram uma estratégia de ‘fascismo em rede’ da extrema direita, que usa as redes sociais para difundir ódio ao conhecimento e desestabilizar instituições de ensino.
O artigo, intitulado ‘Performances políticas da extrema direita no Brasil: invasões na FFLCH-USP e a circulação digital do ódio ao conhecimento’, é de autoria de Bruno Ciorlia Nascimento, graduando, e Marcelo de Trói, professor, ambos da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP. O estudo é a primeira análise sociológica dos episódios, que tiveram ampla cobertura midiática.
Segundo os pesquisadores, as invasões não podem ser vistas como protestos convencionais, mas como ‘performances políticas’ espetacularizadas, planejadas para gerar viralização em plataformas como YouTube e Instagram. Os vídeos produzidos pelos invasores, incluindo um vereador de São Paulo, usam títulos provocativos, imagens de confronto e legendas moralizantes para circular nos algoritmos e mobilizar afetos de ódio.
O estudo identificou que os discursos dos invasores se baseiam em ideologias autoritárias, com forte presença de anti-intelectualismo, moralismo religioso e anticomunismo. Essa aversão ao pensamento crítico tem raízes históricas nos movimentos fascistas do século 20, mas se reorganiza hoje no ambiente digital, alimentada por teorias conspiratórias e pela sensação de exclusão de parte da população em relação à universidade, especialmente após políticas de inclusão como as cotas.
Os autores também apontam que o fenômeno é capitalizado por um ecossistema comunicacional dominado por grandes conglomerados de informação, que potencializam a difusão de discursos de ódio sob o pretexto de liberdade de expressão. Essa instrumentalização abre espaço para o projeto neoliberal de desmantelamento do ensino público, como os cortes de gastos e a redução de disciplinas de humanidades no ensino médio.
Diante desse cenário, o estudo conclui que é urgente um pensamento crítico sobre o papel das tecnologias na sociedade, pois algoritmos e desinformação estão redefinindo o autoritarismo no Brasil e ameaçando conquistas democráticas e do conhecimento.
