Exposição “Cavalo Pálido e os Sanguis-fé”, de Igor Vidor, abre na Verve Galeria e investiga a origem da palavra “favela” a partir da história de Canudos.
O arraial de Canudos, fundado em 1893 por Antônio Conselheiro e chamado de Belo Monte, tornou‑se uma comunidade autossuficiente que vivia da agropecuária de subsistência, do comércio local e do trabalho comunitário, fora do alcance do Estado. Em 1897, após três derrotas, a quarta expedição do Exército destruiu o povoado.
Vidor aponta que a palavra “favela” tem origem no nome do morro onde o Exército se posicionou para bombardear Belo Monte com canhões Krupp, e antes disso era o nome de uma flor da caatinga. Soldados levaram o termo para o Morro da Providência, no Rio de Janeiro, onde, após uma promessa de moradia não cumprida, passou a designar toda a geografia da exclusão no país.
Na nova mostra, curadoria de Marina Schierasi, o artista utiliza pólvora, terra e madeira; as imagens são emolduradas em cedro, madeira encomendada para a igreja de Belo Monte que nunca foi entregue, simbolizando o estopim do primeiro conflito.
As obras cruzam os aparatos que historicamente registraram a população – imprensa, acervos de museus e documentos policiais – com fotografias tiradas por Vidor no Parque Estadual de Canudos entre 2019 e 2026, criando uma linguagem do real para analisar como a memória se constrói e quais ausências são fabricadas.
Hoje, o antigo arraial está submerso pela barragem de Cocorobó. A exposição traz também a flor “favela”, que insiste em recobrir o sertão, sugerindo uma poética mínima na persistência da memória.
A coluna “Ouvir Imagens”, com a professora Giselle Beiguelman, vai ao ar quinzenalmente, segunda‑feira às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9), com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.
Texto de Jônatas Oliveira (doutorando em Medicina da USP), Marisa de Castro Pereira (Chefe Técnica da Divisão de Apoio ao Ensino e Pesquisa da Prefeitura do Campus de Ribeirão Preto da USP) e Rose Talamone (jornalista da Superintendência de Comunicação Social da USP em Ribeirão Preto), com colaboração de Bruno Ciorlia Nascimento (graduando) e Marcelo de Trói (professor) da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.
