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sábado, 22 de agosto de 2026
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Professora demitida cria escola online e vê ex-aluna entrevistar Angela Davis

Professora demitida cria escola online e vê ex-aluna entrevistar Angela Davis
Professora demitida cria escola online e vê ex-aluna entrevistar Angela Davis
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Karina Santana, professora de inglês e fundadora da escola online Kasch Inglês para Todos, foi demitida após pedir mudança na rotina para cuidar do filho. Hoje, ela celebra a trajetória que inclui uma ex-aluna que, anos depois de começar no nível básico, entrevistou a ativista Angela Davis.

Karina Santana passou mais de uma década ensinando inglês em escolas bilíngues de elite de São Paulo. Todos os dias, atravessava uma cidade marcada pela desigualdade e por uma pergunta que a acompanhava desde o início da carreira: por que tão poucas pessoas parecidas com ela tinham acesso ao inglês?

Negra, periférica e filha de uma ex-faxineira que ingressou na universidade por meio da Educafro e se formou em Direito, Karina viu de perto como o domínio do idioma abria portas profissionais. Mas também percebeu que essas oportunidades permaneciam concentradas em uma parcela muito específica da população.

A percepção da professora também aparece nos números. Um estudo do British Council, realizado em parceria com o Data Popular, mostra que apenas cerca de 5% dos brasileiros com mais de 16 anos afirmam ter algum conhecimento de inglês e que menos de 1% da população é considerada fluente no idioma. Para Karina, esse cenário evidencia como aprender uma segunda língua ainda é um privilégio para poucos no país.

Karina Santana, fundadora da Kasch Inglês para Todos e cria da Zona Leste de São Paulo. — Foto: g1

Hoje, aos 32 anos, ela é professora, criadora de conteúdo e fundadora de uma escola online que atende centenas de alunos em diferentes estados brasileiros e também no exterior.

Criada entre os bairros Jardim Iva, Vila Nova York e São Mateus, na Zona Leste paulistana, Karina cresceu em uma família que enxergava a educação como ferramenta de transformação social.

A principal referência foi a mãe, que estudou pela Educafro, cursinho popular voltado à inclusão de pessoas negras, indígenas e de baixa renda no ensino superior.

Michael Jackson, Whitney Houston e Aretha Franklin faziam parte da trilha sonora da infância. Ela queria entender o que aqueles artistas cantavam e quais mensagens estavam por trás das letras.

Anos depois, uma bolsa de estudos em uma escola de idiomas abriu caminho para uma carreira iniciada aos 17 anos. Mas trabalhar em escolas bilíngues também trouxe experiências difíceis.

Karina conta que, em diferentes momentos da carreira, enfrentou episódios de racismo dentro do ambiente escolar.

Um deles aconteceu quando uma criança levou um sabonete para a sala de aula e disse que ela precisava “se limpar porque preto é sujo”.

Segundo ela, a direção tentou minimizar o episódio e impedir que os pais fossem comunicados.

As experiências acumuladas ao longo dos anos fortaleceram um incômodo que já existia: o ensino de inglês continuava distante das pessoas que vinham da mesma realidade que ela.

Karina Santana, professora e criadora de conteúdo que usa o inglês como ferramenta de transformação social. — Foto: Reprodução

Após retornar da licença-maternidade, Karina pediu uma alteração na rotina de trabalho para acompanhar o tratamento médico do filho mais novo, diagnosticado com uma síndrome rara. No dia seguinte, foi demitida.

Com um perfil recém-criado nas redes sociais, começou a produzir conteúdos sobre ensino de inglês, racismo, educação e desigualdade no acesso ao idioma. O que começou com apenas três alunos cresceu rapidamente. Em junho eu já tinha mais de 100 alunos. No fim do ano, eram 150.

Hoje, a escola Kasch reúne centenas de estudantes, conta com uma equipe de professores, plataforma própria e alunos espalhados por diversas cidades brasileiras e também em outros países.

Para Karina, porém, o maior resultado não está apenas no número de matrículas, mas nas histórias que surgiram ao longo da trajetória.

Uma delas aconteceu com uma aluna que iniciou o curso no nível básico de inglês. Anos depois, ela entrevistou Angela Davis, filósofa, escritora e ativista norte-americana considerada uma das principais referências mundiais na luta pelos direitos civis, pelo feminismo negro e pelo combate ao racismo.

Após a entrevista, a ex-aluna procurou Karina para agradecer e contou que só conseguiu conduzir a conversa graças ao método de ensino que aprendeu durante o curso.

Para a professora, momentos como esse representam o verdadeiro impacto do seu trabalho.

Karina Santana, educadora que trocou as salas de escolas bilíngues pela criação de um projeto próprio de ensino de inglês. — Foto: Reprodução

Além das aulas, Karina utiliza as redes sociais para discutir temas como colonialismo linguístico, representatividade, empreendedorismo e educação. Os conteúdos produzidos por ela também abordam maternidade, desigualdade social e o acesso ao ensino de idiomas.

Recentemente, a educadora conquistou o primeiro lugar no Fiel Conecta, evento voltado ao empreendedorismo periférico realizado na Neo Química Arena. Para ela, o reconhecimento vai além do prêmio e evidencia o potencial criativo e inovador das periferias, que muitas vezes não recebe a mesma visibilidade de outros territórios.

Hoje, além de comandar a escola, Karina também incentiva outros empreendedores e criadores de conteúdo a utilizarem as redes sociais como ferramenta de transformação e geração de oportunidades.

“Eu não quero que as pessoas aprendam inglês porque alguém mandou. Quero que elas entendam por que isso pode abrir oportunidades.”

“Eu sempre gostei muito de música. Cresci ouvindo Michael Jackson, Whitney Houston e Aretha Franklin e queria entender o que eles cantavam. Depois ganhei uma bolsa de estudos em uma escola de idiomas e aproveitei tudo que podia.”

“Foi um choque cultural enorme. Eu era uma das únicas professoras negras dessas escolas e uma das poucas que nunca tinha feito intercâmbio ou saído do Brasil.”

Você acredita que o acesso ao inglês ainda é desigual no Brasil?

“Muito. A maior parte das pessoas ainda não tem acesso ao idioma. O inglês continua sendo tratado como um privilégio, quando deveria ser uma ferramenta para ampliar oportunidades.”

“Durante a pandemia comecei um projeto sobre literatura negra infantil. Não viralizou, mas me ajudou a perder o medo de produzir conteúdo.”

“Quando fui demitida, depois de pedir uma mudança na rotina para acompanhar o tratamento do meu filho, eu pensei: preciso construir alguma coisa minha.”

“Eu comecei com três alunos. Criava conteúdo todos os dias mostrando minha rotina, minhas aulas e minha visão sobre educação. Em poucos meses passei de 100 alunos.”

Qual foi um dos momentos mais marcantes da sua trajetória como professora?

“Uma aluna começou comigo no inglês básico e, anos depois, entrevistou a Angela Davis. Depois ela me escreveu dizendo que só conseguiu fazer aquela entrevista por causa do inglês que aprendeu comigo. Isso não tem preço.”

“Não. Eu falo sobre desigualdade, acesso à educação, racismo, maternidade e empreendedorismo. O inglês é uma ferramenta, mas a conversa vai muito além disso.”

“Já recebi e recusei. Não quero construir minha trajetória ganhando dinheiro em cima de algo que pode prejudicar justamente o público que eu tento alcançar.”

“Recebo muitas mensagens de meninas que querem ser professoras ou empreender. Isso me emociona. Eu quero mostrar que esses caminhos também existem para elas.”

“A internet mudou minha vida e criou oportunidades que eu não imaginava. Mas nada disso substitui estudo, estratégia e consistência. Quando a gente entende isso, muita coisa começa a acontecer.”

Karina Santana acredita que o ensino de inglês pode abrir portas para pessoas que historicamente ficaram longe desse acesso. — Foto: Reprodução

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