Uma pesquisa conduzida pelo músico Franco Galvão resultou na recuperação de um acervo com documentos e gravações que revelam a trajetória do compositor Vadico (Oswaldo Gogliano, 1910-1962) para além de sua famosa parceria com Noel Rosa. O material, encontrado em arquivos nos Estados Unidos, inclui partituras e fonogramas que estavam praticamente inéditos no Brasil.
O pontapé inicial ocorreu quando o jornalista Itamar Dantas mencionou a Galvão um disco de 1953 da companhia de dança de Katherine Dunham, que continha três choros de Vadico. A partir daí, Galvão contatou o Katherine Dunham Museum, que indicou a filha da bailarina, Marie-Christine Dunham Pratt. Ela informou que os documentos estavam na Universidade do Sul de Illinois, onde Galvão recebeu um catálogo com cerca de 900 páginas.
O pesquisador cruzou as informações do catálogo com o texto escrito por Vinicius de Moraes para o encarte do disco Dançando com Vadico, de 1956, o que permitiu identificar peças que circularam em apresentações no exterior na década de 1950. “O que é ‘inédito’?”, questiona Galvão, explicando que as músicas foram apresentadas em algum momento, portanto, trata-se de uma redescoberta ou recuperação.
A violonista e pesquisadora Flávia Prando, da USP, destaca a dimensão transnacional do trabalho: “representam um dos mais expressivos conjuntos documentais recentemente incorporados ao estudo da música popular brasileira”. Ela ressalta que a recuperação do acervo pode suscitar novas perguntas sobre repertórios, circulação internacional e práticas de composição.
O processo de reconstrução foi minucioso. Galvão comparou partituras assinadas com as não assinadas para confirmar autoria e utilizou a cor do papel para identificar arranjos. “Imagina uma ossada de dinossauro e você ali, pegando osso por osso”, compara. O resultado é um box com 37 faixas, lançado em 31 de julho, incluindo gravações inéditas e releituras de músicas conhecidas, acompanhado de um livreto bilíngue com textos de Nei Lopes e Franco Galvão.
O projeto abrange três dimensões da carreira de Vadico: diretor musical, pianista e cancioneiro. As faixas incluem desde grandes formações até regionais de choro e canções carnavalescas e bossa nova. Vadico morou 15 anos nos Estados Unidos, onde trabalhou com Carmen Miranda e nos Estúdios Disney. Para Flávia Prando, a pesquisa revela que Vadico nunca foi desconhecido, mas sua atuação profissional mais ampla permaneceu invisível, incluindo trabalhos como arranjador, regente e músico de estúdio.
