A adoção de motores flexíveis no Brasil, que utilizam gasolina ou etanol, ajudou a estabilizar os preços do petróleo, mas essa vantagem não se estende a caminhões e ônibus, que ainda dependem do diesel, um derivado do petróleo. Esses veículos representam apenas 5% da frota, mas são responsáveis por quase metade do consumo de combustíveis líquidos no país.
Os caminhões e ônibus percorrem longas distâncias e necessitam de motores potentes, resultando em maior consumo de combustível. Por isso, a redução da dependência do diesel é crucial para proteger a economia brasileira das oscilações de preços dos combustíveis fósseis, especialmente em um cenário global marcado por tensões geopolíticas.
No Instituto de Química da Unesp, em Araraquara, pesquisadores estão desenvolvendo o diesel verde, ou HVO (Hydrotreated Vegetable Oil), uma alternativa sustentável ao diesel fóssil. O combustível é produzido a partir de óleos extraídos de biomassa, que podem ser de origem vegetal, resíduos ou animal.
A principal diferença entre o diesel verde e o biodiesel está no processo de produção. O biodiesel passa por transesterificação, enquanto o diesel verde é obtido por hidrogenação, um método mais caro e complexo, mas que gera um combustível semelhante ao diesel convencional.
A professora Sandra Pulcinelli explica que o diesel verde é mais energético e emite menos CO2, além de ter melhor queima e maior estabilidade. No entanto, o custo de produção ainda é um desafio. Um projeto em andamento visa tornar o HVO uma alternativa viável, com financiamento de R$ 5 milhões da Fapesp.
A proposta inclui o desenvolvimento de uma plataforma tecnológica para transformar diferentes biomasses em diesel verde, permitindo abastecer veículos pesados sem a necessidade de mistura com diesel fóssil. Atualmente, quase todo o diesel utilizado é misturado ao biodiesel, cuja proporção deve aumentar até 2030, mas que apresenta limitações devido à sua higroscopicidade.
O projeto busca também novas fontes de matéria-prima que não competem com a produção de alimentos e alternativas de catalisadores mais acessíveis. A pesquisa inclui testes em escala laboratorial e piloto, com a expectativa de que os primeiros artigos científicos sejam publicados no próximo ano.
