Um estudo conduzido por pesquisadores da USP, Unifesp e UFRGS revelou que crianças e adolescentes com maior predisposição genética à depressão tendem a apresentar sintomas mais intensos e que pioram mais rapidamente ao longo da adolescência. A pesquisa, publicada na revista Biological Psychiatry, acompanhou mais de duas mil crianças e jovens de escolas públicas em São Paulo e Porto Alegre, com idades entre 6 e 23 anos.
Os cientistas calcularam o chamado escore poligênico, que soma pequenas variações no DNA que, juntas, aumentam o risco de depressão. Esse escore explicou entre 2,6% e 3,6% das diferenças no risco de desenvolver Transtorno Depressivo Maior entre os participantes. Embora pareça baixo, o número é relevante no contexto da pesquisa, pois mostra que a genética tem um papel mensurável no desenvolvimento da doença.
“O nosso escore poligênico explicou entre 2,6 e 3,6% das diferenças no risco de transtorno depressivo maior entre os participantes. Um adolescente da amostra, por exemplo, que apresenta diminuição de energia, choro fácil, falta de prazer nas atividades, vontade de ficar na cama o dia inteiro, não consegue render na escola, pensa em suicídio… Do quadro clínico, dos sintomas de depressão, tudo isso que ele conta para a gente, o nosso escore explica entre 2,6 e 3,6%”, detalha o psiquiatra Marcelo Brañas, pesquisador da Faculdade de Medicina da USP e co-primeiro autor do artigo.
O estudo também constatou que, entre os jovens com Transtorno Depressivo Maior, aqueles com maior risco genético apresentam maior frequência de autolesão não suicida. Além disso, a pesquisa inovou ao testar se as ferramentas genéticas desenvolvidas em populações europeias funcionam em populações miscigenadas, como a brasileira, que ainda são pouco representadas nos estudos de genética psiquiátrica.
“Populações brasileiras miscigenadas seguem ainda muito pouco presentes na genética psiquiátrica”, afirma Brañas. “O nosso artigo buscou responder à pergunta se o risco genético para depressão apenas define um ponto de partida para o surgimento do transtorno ou se também molda a forma como os sintomas evoluem à medida que um jovem cresce.”
Os pesquisadores alertam que o uso clínico desses escores ainda está distante. “A gente está começando a elucidar essa história, da utilidade clínica dos escores poligênicos em psiquiatria”, diz Brañas. Ele ressalta que não é possível diagnosticar depressão por um teste genético e que implicações éticas precisam ser discutidas. “Isso ainda está longe, mas se a gente chegar a realmente ter esses instrumentos genéticos, será que eles podem ser prejudiciais ao paciente, com impactos psicológicos? É algo que ainda precisa ser muito bem discutido e estudado.”
Os participantes fazem parte da Coorte Brasileira de Alto Risco para Condições Mentais (BHRC), um estudo de longa duração que acompanha 2.500 crianças e adolescentes há mais de 15 anos, ligado ao Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM). O artigo completo está disponível no site da revista Biological Psychiatry.
