Um quilo de cocaína produzido na Colômbia é vendido nos Estados Unidos por um valor cerca de 25 vezes maior que o custo de produção. Os lucros são transferidos para a Ásia via criptoativos e usados para comprar cigarros falsificados, que retornam por contrabando à América Central e ao Caribe. O exemplo, ocorrido há três anos, foi citado por Iván Marques, secretário de Segurança Multidimensional da Organização dos Estados Americanos (OEA), durante conferência na USP.
O evento, intitulado “A Segurança Multidimensional nas Américas em Tempos de Crise: a OEA diante do Crime Organizado Transnacional e da Instabilidade Regional”, abriu o semestre da Escola de Segurança Multidimensional (ESEM) do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP, em agosto. Marques destacou que o comércio global e a expansão dos meios de comunicação permitiram ao crime organizado se adaptar rapidamente, explorando portos, logística, plataformas tecnológicas e sistemas financeiros para escalar operações ilícitas em velocidade inédita.
Segundo o secretário, enquanto as organizações criminosas integram diferentes delitos e países, os Estados atuam de forma fragmentada, com cooperação limitada e instituições que respondem separadamente a cada tipo de crime. Essa fragmentação permite que, enquanto o Estado foca em uma frente, outras continuem operando e se fortalecendo.
Marques também observou que a estrutura dessas organizações mudou: antes hierarquizadas, com lideranças claras como Pablo Escobar, agora são descentralizadas, com grupos assumindo funções específicas. Assim, a captura de uma liderança não desarticula toda a estrutura, que se reorganiza rapidamente.
O secretário ressaltou que as respostas legítimas dos Estados são mais lentas por respeitarem normas e procedimentos, mas isso não justifica ignorar a lei. “É preciso construir instituições preparadas, interoperáveis e capazes de aprender, preservando a legalidade, os direitos e a legitimidade”, concluiu.
