Uma pesquisa desenvolvida no Instituto de Relações Internacionais da USP investiga como as potências globais competem indiretamente em conflitos, com foco na guerra na Síria. De acordo com a autora Ana Karolina Morais, mais de 13,5 milhões de pessoas foram deslocadas devido ao conflito, que é comumente visto como uma guerra civil, mas que, segundo ela, é influenciada por atores estrangeiros.
Através de entrevistas e revisão de documentos, Morais concluiu que a guerra na Síria exemplifica uma nova forma de conflito internacional, definida como ‘guerra por procuração’, onde potências se enfrentam indiretamente ao apoiar forças locais. O Oriente Médio, devido à sua localização estratégica, é um importante estudo de caso para entender a distribuição de poder global.
Historicamente, a região foi controlada pelo Império Otomano até sua dissolução após a Primeira Guerra Mundial, quando potências como França e Inglaterra dividiram o território. A influência europeia persistiu até os anos 70, quando movimentos de independência começaram a ganhar força. Durante a Guerra Fria, EUA e União Soviética estabeleceram um modelo de conflito indireto, formando alianças estratégicas.
Com o fim da Guerra Fria, a política internacional foi dominada pela unipolaridade dos EUA, mas a ascensão de novas potências, como a China e a recuperação militar da Rússia, começou a mudar essa dinâmica. Ana Karolina observa que atualmente existe uma multipolaridade assimétrica, onde as potências competem por influência através de acordos econômicos e militares.
A guerra na Síria, que começou em 2011, foi exacerbada por uma crise econômica e a resposta violenta do governo de Bashar al-Assad a protestos populares. Embora a mídia tenha caracterizado o conflito como uma guerra civil, Morais argumenta que houve uma intervenção significativa de agentes internacionais, com financiamento de grupos rebeldes por parte dos EUA e aliados.
Essas ações geram um cenário de caos geopolítico, permitindo que potências influenciem a escolha de novos governos alinhados a seus interesses. A intervenção da Rússia na Síria, iniciada oficialmente em 2015, marca um retorno do país ao cenário do Oriente Médio, refletindo a reconfiguração das dinâmicas de poder entre EUA e Rússia ao longo da última década.
