Uma pesquisa realizada ao longo de duas décadas identificou o primeiro receptor de melatonina em parasitas, abrindo novas possibilidades para o desenvolvimento de medicamentos contra o Plasmodium falciparum, causador da malária.
“Atualmente, o grande desafio no combate à malária é a resistência dos parasitas aos medicamentos antimaláricos disponíveis”, afirmou Bárbara Dias, pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) e da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP.
A melatonina, hormônio produzido pela glândula pineal, é liberada no início da noite e tem seu pico algumas horas depois, ajudando a promover o sono. Em mamíferos, atua por meio de receptores acoplados a proteínas G (GPCRs), que transmitem sinais hormonais para as células.
Célia Regina da Silva Garcia, professora da FCF, destacou que uma característica marcante dos parasitas da malária é a capacidade de sincronizar seu desenvolvimento dentro dos glóbulos vermelhos, resultando em episódios de febre a cada 48 horas. Essa descoberta levou os pesquisadores a investigar se o parasita possui uma proteína capaz de detectar melatonina.
Em 2008, o grupo identificou quatro possíveis GPCRs no genoma do Plasmodium, o que abriu novas perspectivas sobre como esses parasitas percebem o ambiente do hospedeiro. Recentemente, os cientistas estudaram dois desses candidatos e confirmaram que o MT-PfSR1 responde funcionalmente à melatonina.
Além disso, foi identificado um composto sintético que inibe a atividade do receptor MT-PfSR1, mostrando-se seletivo e capaz de inibir o crescimento do parasita em cultura celular.
A malária, transmitida principalmente pela picada de mosquitos Anopheles infectados, é uma doença grave que pode levar a complicações fatais. Em 2024, a OMS registrou 282 milhões de casos da doença, com 536.700 casos na América.
O estudo, financiado pela Fapesp e pela Capes, foi publicado na revista Current Research in Microbial Sciences.