A automação na preservação de documentos altera não apenas a aparência das imagens, mas também a verdade que elas representam. Rugas e grãos são removidos, e conflitos são neutralizados, resultando em uma versão suavizada do passado, que se alinha com as estéticas dominantes das plataformas digitais.
O design da memória envolve decisões sobre metadados e acesso, e quando mediado por modelos probabilísticos, a historicidade se transforma em ruído. A ideia de ‘pasteurização’ do passado, discutida por Umberto Eco, sugere que o passado fabricado pode se tornar mais convincente do que o documentado.
Essa transformação é observada na ‘retromania’, onde o passado é convertido em um repertório estilístico para consumo. Ferramentas de animação baseadas em inteligência artificial, como o aplicativo Deep Nostalgia, visam intensificar a resposta sensorial em vez de ampliar a compreensão do contexto histórico.
O conceito de ‘vale da estranheza’, de Masahiro Mori, ajuda a entender o desconforto ético que surge com a aproximação das imagens ao ‘quase vivo’. A estética do ‘quase vivo’ não restitui o passado, mas o performa, enquanto a lógica algorítmica produz imagens médias que representam a convergência estatística de dados.
Esse processo dilui o singular em favor do provável, e narrativas dissonantes e traumas coletivos tendem a ser suavizados, pois não se encaixam nos padrões de relevância das plataformas. A crítica de Giselle Beiguelman aponta que a eliminação das marcas do tempo cria um passado ‘limpo demais’ para ser verdadeiro.
Além disso, a pasteurização do passado revela um design da memória que prioriza a estética de consumo em detrimento do rigor documental. O arquivo, ao se tornar um produto, perde a capacidade de refletir a complexidade da experiência humana.