A relação entre Brasil e Argentina voltou a ganhar destaque após declarações polêmicas do presidente argentino, Javier Milei, contra o governo brasileiro. Apesar das críticas, especialistas afirmam que a integração econômica entre os dois países impede que crises políticas entre os presidentes se transformem em rupturas nas relações de Estado.
Na última semana, Milei chamou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de “presidiário” e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes de “lixo careca”, durante convenção do Partido Liberal que confirmou a candidatura de Flávio Bolsonaro à eleição. Em resposta, o Itamaraty convocou o embaixador brasileiro na Argentina, Júlio Bitelli, de volta a Brasília.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, reagiu às declarações chamando Milei de “palhaço” e argumentou que a Argentina apresenta indicadores mais desfavoráveis que o Brasil, como risco-país, dívida pública e inflação. Já o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, classificou Milei como uma “caricatura patética” e “puxa-saco” de Donald Trump. As manifestações, no entanto, foram alvo de críticas reservadas de integrantes do Planalto e do Itamaraty, que avaliaram que as respostas se afastaram da linha diplomática.
A professora de Relações Internacionais da ESPM, Denilde Holzhacker, destaca que a convocação do embaixador faz parte dos ritos diplomáticos tradicionais. “A repercussão do episódio pode variar conforme a resposta do governo argentino ao gesto brasileiro”, afirma. Ela avalia que temas estratégicos, como comércio e Mercosul, não são afetados pela relação conturbada dos presidentes, pois negociações seguem uma lógica de interesse entre os países.
O professor Antônio Jorge Ramalho, da UnB, avalia que Milei busca protagonismo nas redes sociais, “falando para a sua bolha”. A tensão entre os presidentes começou durante a campanha eleitoral de Milei, que já fazia críticas a Lula. Apesar disso, no campo diplomático, a relação seguiu com negociações em áreas como comércio, energia e infraestrutura.
Historicamente, as divergências entre presidentes não impediram a parceria. Em 2021, Bolsonaro criticou a gestão de Fernández no Mercosul, mas os dois encerraram os mandatos em tom conciliador. Em 2022, Fernández disse que “Brasil e Argentina não podem estar brigados, acima de qualquer diferença política”, destacando a relevância da relação bilateral.
