Um estudo do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP revela que as bordas urbanas, zonas de transição entre a cidade e o campo, têm potencial inexplorado para a regeneração florestal. A pesquisa, publicada na revista Scientific Reports, do grupo Nature, analisou 30 anos de dados de desmatamento e regeneração no estado de São Paulo e concluiu que essas áreas regeneram mais do que desmatam.
Segundo a pesquisadora Luciana Schwandner Ferreira, a restauração é normalmente associada a áreas rurais, mas as bordas urbanas também podem receber projetos ambientais. “A restauração é normalmente considerada como algo a ser feito mais nas áreas rurais, onde tem mais espaço e o solo é mais barato. O nosso trabalho, contudo, argumenta que as áreas urbanas e as bordas urbanas também têm potencial de receber esse tipo de incentivo e de projeto”, afirma.
O estudo identificou que, na macrometrópole paulista, que abriga 32,7 milhões de pessoas em 174 municípios, a regeneração superou o desmatamento em 2004. Nas áreas de preservação permanente (APPs) e zonas de risco, a inversão ocorreu ainda nos anos 1990, impulsionada pela proteção legal. “Nessas áreas de APP e de risco, a regeneração supera o desmatamento desde o início dos anos 1990. Por quê? Porque tem uma proteção legal. Isso é política pública com efeito”, destaca a pesquisadora.
Os números são expressivos: as bordas urbanas somam 810 mil hectares no estado, dos quais 413 mil hectares (cerca de 50%) são potencialmente disponíveis para restauração. Na macrometrópole, são 235 mil hectares apenas nas bordas, o que poderia representar 27% da meta estadual de restaurar 1,5 milhão de hectares até 2050. Em comparação, as áreas urbanas densas têm apenas 10% de território potencialmente disponível.
Apesar da tendência positiva, a regeneração é fragmentada, com aumento do número de fragmentos, o que limita a conectividade entre os remanescentes e a recuperação da biodiversidade. A pesquisadora ressalta que os benefícios da restauração em áreas urbanas incluem redução de temperatura, regulação hídrica, melhora da qualidade do ar e geração de empregos. “Fazer restauração em qualquer ambiente é maravilhoso. Mas se conseguirmos fazer isso mais perto das pessoas, os benefícios que são muito locais, como a redução de temperatura, chegam a quem precisa”, explica.
