O futuro da agricultura será definido não apenas por fatores tradicionais como chuva, solo e sementes, mas também por modelos matemáticos, imagens de satélite, sensores e algoritmos que antecipam riscos. Em um cenário de aquecimento global e população crescente, o setor precisa ampliar a produção sem aumentar proporcionalmente o consumo de recursos e as emissões de gases de efeito estufa.
Pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP estão na vanguarda desse desafio, desenvolvendo estudos que integram clima, produção e tecnologia. A diretora da instituição, professora Thais Maria Ferreira de Souza Vieira, ressalta que não existe um modelo único para o Brasil: “Precisamos de diferentes sistemas produtivos adaptados aos diferentes biomas”.
O professor Fábio Ricardo Marin, do Departamento de Engenharia de Biossistemas, afirma que as mudanças climáticas já são uma realidade observada, com aumento consistente das temperaturas e chuvas mais sazonais. No Estado de São Paulo, principal região canavieira, a tendência é de outonos e invernos mais secos e verões mais úmidos. “Não é um cenário futuro abstrato. É uma tendência que nossos modelos já reproduzem a partir de dados observados”, explica.
Os impactos variam conforme a cultura. Culturas perenes, como pastagens, café, citros e cana-de-açúcar, enfrentam maiores riscos, enquanto soja e milho podem escapar da fase crítica. Nas pastagens, zonas de menor latitude podem exigir renovação recorrente devido à seca severa, com impacto econômico direto para o produtor. No Nordeste, as simulações indicam maiores perdas para o milho, devido à combinação de baixa disponibilidade hídrica e solos com pouca retenção de água.
Apesar dos riscos, as projeções mostram possibilidades de ganhos. A soja pode se beneficiar do efeito fertilizante do CO₂, com aumentos de produtividade entre 1% e 32% em algumas regiões. O milho tende a perder produtividade, mas ajustes genéticos e de calendário podem reduzir as perdas. A cana-de-açúcar apresenta um quadro ambíguo, com ganhos de produtividade acompanhados de aumento nas emissões de óxido nitroso, que podem crescer de 5% a 30%.
Marin destaca que há espaço para aumentar a produção sem expandir a área cultivada, pois os rendimentos atuais de milho, soja e cana estão cerca de 55% abaixo do potencial. “O desafio não é apenas produzir mais, mas compreender quais escolhas produzem os melhores resultados para cada sistema produtivo”, afirma.
A Esalq contribuiu para o desenvolvimento de métodos de estudo de impactos climáticos na agricultura tropical, incluindo a calibração de modelos internacionais e a criação de zonas agroclimáticas homogêneas. O Atlas Brasileiro de Lacunas de Produtividade é um exemplo dessa contribuição. O objetivo é transformar incerteza climática em decisão agronômica, oferecendo ao produtor estratégias com risco quantificado.
Entre as alternativas já disponíveis estão o plantio direto com cobertura do solo, cultivares tolerantes à seca, ajuste de datas de plantio, irrigação eficiente e manejo aprimorado de fertilizantes. Na pecuária, o diferimento de pastagens e a ensilagem podem reduzir a sazonalidade da produção, revertendo quedas projetadas de produtividade.
